RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS: Diálogos permanentes
Resumo
Podemos afirmar, hoje, que as relações étnico-raciais ocupam um lugar relevante e de visibilidade nas preocupações acadêmicas e políticas da sociedade brasileira. Algumas situações ocorridas ao longo do ano de 2012 têm confirmado essa constatação. Podemos destacar, no plano político, a aprovação do princípio constitucional das ações afirmativas pelo Supremo Tribunal Federal, a forte presença do Movimento Negro e de Mulheres Negras na Conferência Rio + 20 e na Cúpula dos Povos e a luta do Movimento Quilombola.
No plano acadêmico, tais eventos são acompanhados de reflexões de intelectuais negros e não negros, as quais serão fruto de debates e discussões do VII Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros (VII COPENE) a ser realizado nas dependências da UDESC, em Florianópolis, de 16 a 20 de julho de 2012.
Essa efervescência pode ser observada no presente número da Revista da ABPN. A variedade de artigos, enfoques e discussões apresentada nesta revista enriquece a discussão teórica sobre relações étnico-raciais no Brasil. Além disso, a presença de pesquisadores e pesquisadoras de diferentes regiões do país possibilita ao leitor compreender como, a partir do local e do regional, as relações étnico-raciais têm sido debatidas em diálogo com as mudanças e acontecimentos nacionais.
Música, educação, religiosidade, política, mídia, conteúdos curriculares, educação superior, identidade, desigualdades são alguns dos enfoques dados pelos diferentes autores e autoras, a partir de sua área do conhecimento, levantando questões para seu próprio campo de atuação em articulação com outros campos de estudos das relações étnico-raciais e trazendo indagações para a sociedade brasileira.
A revista abre com o artigo de Luciana de Oliveira Dias, “Desigualdades étnico-raciais e políticas públicas no Brasil”, que teve como meta a análise da relação entre políticas de cidadania e desigualdade étnico-raciais no Brasil, caracterizado por suas desigualdades estruturais e estruturantes no que tange aos direitos humanos, o que leva a perpetuar a subalternização dos negros.
Em seguida, apresentamos vários textos, que, com seus diferentes olhares e enfoques, refletem teoricamente sobre as relações étnico-raciais na educação ou narram experiências ou pesquisas desenvolvidas, na perspectiva de construção de outra história e novas abordagens da cultura afro-brasileira na formação de professores e no sistema de ensino, o racismo na mídia, a cultura negra como espaço de formação e os preconceitos sofridos por aqueles que se devotam as religiões de matrizes africanas.
Raquel Amorim dos Santos e Wilma de Nazaré Baía Coelho, no texto “História e cultura afro-brasileira no ensino fundamental: mito ou realidade?” apresentam os resultados da pesquisa realizada com professores acerca da Lei 10.639/2003 e a implantação das DCNERER no currículo do Ensino Fundamental, tendo como foco principal revelar as representações sociais dos docentes sobre o preconceito e a discriminação racial na escola.
Em “Do ponto que vê aos passos de quem caminha – perspectivas teórico-práticas em uma experiência com a educação das relações étnico-raciais entre licenciandos de história”, Everardo Paiva de Andrade, Rosana da Câmara Teixeira e Danielle Henriques Magalhães relatam o conjunto de atividades desenvolvidas na disciplina prática de ensino realizada por licenciandos do curso de História de uma Universidade Pública com vista à formação de professores para uma ação pedagógica antirracista.
Roberto Borges em seu artigo “Filmes documentários: uma possibilidade de aplicação da Lei 10.639/03” se propõe a pensar os diferentes modos de se trabalhar com o cinema na escola, refletindo sobre os diversos modos de “abordagens discursivas aplicadas à narrativa fílmica”, destacando-o como valoroso instrumento no combate ao racismo, visto sua ludicidade, praticidade e facilidade de acesso.
Débora Cristina de Araújo em “Ideologia e racismo: análise de discurso sobre a recepção de leituras de obras infanto-juvenis” realizou um estudo no qual pode observar os discursos de docentes e discentes sobre obras literárias infanto-juvenis utilizadas em três turmas do quinto ano do primeiro segmento do ensino fundamental numa escola municipal, desvelando suas “estratégias ideológicas na interpretação das mensagens” nas quais o preconceito e estereótipos, ao contrário de visarem a superação, são reforçados, principalmente no que tange a história e cultura afro-brasileira e africana.
Outro instigante texto que publicamos, “Refletindo sobre o ensino de história e cultura afro-brasileiras à distância”, Zelinda Barros analisa as propostas de adoção da Educação a Distância para formação a de professores para o ensino de História e Cultura Afro-brasileiras, ressaltando
que estas se baseiam no princípio da educação como direito. Ao mesmo tempo, não se exime de uma reflexão crítica sobre a EaD, que apesar de propiciar um novo modelo de educação pode não reconhecer a população negra como digna de uma educação de qualidade, e, portanto, aponta para a importância da discussão de estratégias e abordagens que não permitam uma nova exclusão educacional.
Em “Onde estão os alunos negros da Universidade Estadual de Maringá (PR)?”, Pedro Dias Mangolini Neves, Maria das Graças de Lima e Aldenir Dias dos Santos relatam a pesquisa efetuada, com enfoque quali-quantitativo, para compreender o sistema de cotas implantado e em que cursos os negros estão inseridos na Universidade de Maringá, região noroeste do Paraná. Concluíram pela sua relevância na superação do abismo ainda existente entre o número de vagas e os cursos oferecidos e frequentados por negros e na inclusão dessa população na universidade.
O artigo “A ideologia do racismo: entre o discurso do cotidiano e a materialização na mídia brasileira”, de Williem Silva de Freitas e Joselina Rodrigues Reis, buscou demonstrar, através da metodologia de Análise do Discurso, que “a ideologia do branqueamento ainda está profundamente arraigada no seio de nossa sociedade”. Para tal, apresenta alguns fatos revelados na mídia, principalmente na Rede Globo de Televisão, enfocando particularmente em sua análise a fala do ator Rodrigo Lombardi durante o programa Domingão do Faustão.
“Identidades e (des)igualdades étnico-raciais no ensino de história” de Mirian de Albuquerque Aquino e Alba Cleide Calado Wanderley discute as relações étnico-raciais no ensino de história, destacando que as desigualdades, no ensino de história, muitas vezes são permeadas pelo silêncio, desconhecimento e representações eurocêntricas.
Grace Kelly Silva Sobral Souza, no estudo “Bloco afro-akomabu: espaço de fortalecimento da identidade e autoestima entre crianças e adolescentes negros” teve como proposta entender as ações realizadas por esse grupo com vista a compreender suas influências na sociedade maranhense, nas suas três décadas de existência, e que tem permitido dar visibilidade aos afro-brasileiros no Maranhão e na sua construção identitária.
Em “Os Orixás fazem gênero dentro dos rituais”, Denise Botelho e Hulda Helena Coraciara Stadtler apresentam os resultados da pesquisa em que buscaram comparar as narrativas de grupos cristãos e seguidores(as) de candomblé de Recife (PE), privilegiando os(as) candomblecistas (43 praticantes) sobre mitobiografias e gênero. Suas observações permitiram concluir que os “mitos praticados nos rituais de possessão do candomblé atingem, no cotidiano, as interações sociais entre os homens e mulheres”.
Em outra direção, os autores José Geraldo Rocha e Cleonice Puggian, de “Legitimação da violência e fundamentação da exclusão através do discurso religioso”, abordam a intolerância religiosa existente em relação aos praticantes das religiões de terreiros na Baixada Fluminense, região composta por vários municípios que formam a Região Metropolitana da cidade do Rio de Janeiro. A investigação foi realizada nos anos de 2010 e 2011, quando foram entrevistadas 42 pessoas praticantes das religiões de matrizes africanas, que puderam narrar as violências sofridas decorrentes apenas de suas opções religiosas.
Rita Cristina de Souza Santos em “Jovens adolescentes e negros: saúde, doença e morte em Governador Valadares (MG)”, após um relevante e profunda análise de dados levantados sobre a saúde na cidade de Governador Valadares, aponta para a urgência da incorporação das ações especificas da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), tais como: “vigilância, enfretamento da violência, e qualificação da informação em saúde nos níveis de atenção secundária e terciária em saúde” voltados especificamente para a juventude negra.
Amauri Mendes Pereira no ensaio “Toma que o filho e seu...: políticas públicas pragmáticas e outros desafios na institucionalização da luta contra o racismo” realiza uma avaliação das atuais políticas públicas voltadas para superação do racismo a participação do movimento negro no cenário atual e cujas políticas buscam contemplar.
E, concluindo, na resenha “M’Bala: descolonializando a história africana”, Rosivalda dos Santos Barreto faz um reflexão sobre o filme Em Nome de Cristo, de Roger Gnoan M'Bala, destacando variados aspectos relevante e sua inovação.
Deste modo, mais um número da Revista se apresenta visando provocar discussões e manter aceso o debate, além de proporcionar aos leitores um panorama das reflexões bastante férteis e profícuas empreendidas por pesquisadores de diferentes universidades brasileiras.
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Revista ABPN - Periódico Multidisciplinar, Quadrimestral - ISSN 2177-2770
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